O ano muda, mas será que nós mudamos com ele?
É fácil trocar os números do calendário. Difícil é trocar o olhar, a pressa, os hábitos que acumulamos como se fossem méritos.
Quando o relógio marca meia-noite, desejamos uns aos outros “feliz ano novo”, mas raramente nos perguntamos: que versão minha entrará nesse novo ciclo? Estaremos apenas repetindo mais um giro ou, enfim, aprendendo a andar, a mudar para melhor?
Um novo ano não começa com fogos. Começa com silêncio…
Não se anuncia com ruído, mas com consciência…
A Fome Que Não Sacia
Existe uma fome que nunca conhece saciedade.
Ela não mora no corpo, que, quando alimentado, se aquieta. Essa outra fome é mais sutil e mais voraz: deseja por desejar. E, mesmo depois de receber o que pediu, já pede outra coisa.
Um mestre zen dizia que essa fome se parece com uma tigela furada. Pode verter nela toda a água do rio, e ela nunca se encherá. Porque o problema não está na quantidade de água, mas no buraco na tigela. Não está no que e nem em quanto recebemos, mas em como recebemos.
Vivemos assim, todos os dias: despejando mais e mais – dinheiro, atenção, conquistas, promessas – sobre nossos vazios internos, aquele buraco no peito, sem perceber que a estrutura de crenças e valores existenciais que nos sustentam cada dia, está quebrada, superada.
… Corremos atrás de muito, sem saber sequer por que corremos…
A Pressa e a Promessa
Vivemos num tempo onde esperar é quase um delito!
A cultura do imediatismo transformou o agora não em presença, mas em pressa. Queremos tudo, já… e se possível, um pouco mais…
Mas o bambu não cresce mais rápido se o puxarmos. O fruto não amadurece sob o olhar impaciente. A criança não aprende a andar porque a apressamos.
As realidades profundas obedecem a um ritmo próprio.
Não se trata de lentidão – trata-se de tempo certo.
Quem força a flor a desabrochar cedo demais, rompe seus botões…
Um novo ano que começa não exige promessas velozes, mas presença verdadeira. Antes de querer “realizar tudo”, deveríamos aprender a acolher o que já é.
Antes de querer mais, valorizar o que tem!
Antes de querer mais ter, investir no ser!
Menos Fazer. Mais Ser.
Uma imagem zen nos ajuda a compreender:
Um mestre servia chá a um visitante, mas continuava a verter mesmo depois da xícara estar cheia. O chá escorria pela mesa, pelo chão. O visitante protestou:
– A xícara já está cheia!
E o mestre respondeu:
– Assim está sua mente. Cheia de ideias, tarefas, desejos. Como acolher algo novo, se não há espaço?
Começar um novo ano exige esvaziamento interior. Não para rejeitar o mundo, mas para poder melhor recebê-lo.
Nos ensinaram a medir o valor da vida pela quantidade de coisas acumuladas: conquistas, títulos, aplausos. Mas há uma sabedoria esquecida: é no espaço que se guarda o essencial. É o vazio do vaso que o torna útil. É o silêncio entre as palavras que dá sentido à poesia.
Quem já está cheio de si não encontra espaço para mais ninguém… nem sequer para si mesmo. Pois até a alma precisa de silêncio para se ouvir.
A Arte de Parar
A modernidade nos convenceu de que parar é perder. Que repousar é sinônimo de fracasso. Que o contentamento é mediocridade…
Mas os sábios antigos sabiam o contrário: Só quem sabe parar, sabe viver!
Um arqueiro famoso da antiguidade atirava apenas uma flecha por dia. Não por falta de força, mas por reverência ao gesto.
Preparava-se com atenção, esperava o momento exato, e então disparava, com o corpo inteiro presente naquele único ato.
… E depois, descansava…
Esse é o convite de um novo ano que se deseja diferente:
Menos pressa. Mais precisão!
Menos flechas. Mais intenção!
O Suficiente Como Revelação
Lao Tse dizia: “Quem sabe que suficiente é suficiente, terá sempre o suficiente.”
Essa frase, em nossos tempos, parece um enigma, um koan japonês!
Mas talvez a chave de um novo tempo não esteja em querer mais, e sim em ver melhor… e ser pleno.
Um eremita foi questionado por um viajante:
– Como vive com tão pouco?
E ele respondeu:
– Não sei o que me falta. Talvez a carência não esteja no que não temos, mas na maneira como pensamos sobre o que não temos.
Essa é a verdadeira virada de ano: quando deixamos de contar o que falta, e passamos a habitar o que já está. Quando a tigela furada da alma é colocada no chão… e olhamos, finalmente, para dentro de nós mesmos.
Presença: o Lugar Onde Tudo Começa
O presente não é um lugar a ser alcançado.
Não é um ponto no fim de uma longa estrada, ele está aqui, desde sempre, apenas encoberto pela agitação de nossas buscas.
Contam que um jovem, ansioso por encontrar a felicidade, procurou um velho mestre à beira de um rio.
– Mestre, qual é o caminho para a felicidade? – perguntou.
O ancião apenas apontou para a água corrente e disse:
– O caminho… é o rio…
O jovem olhou, confuso. Viu apenas água, pedras, margens.
Achou a resposta simples demais e partiu, em busca de respostas mais grandiosas.
Anos mais tarde, cansado e envelhecido pela procura sem fim, voltou ao mesmo lugar…
O velho mestre havia partido. Mas o rio ainda corria…
Dessa vez, ele sentou-se. Respirou. Olhou… e finalmente viu!
Percebeu que o rio sempre estivera ali, como a vida, fluindo sem cessar.
O que mudara não fora o rio, mas o seu olhar, agora aquietado o bastante para compreender.
Assim também somos nós.
Esperamos por milagres que nos tirem do lugar, sem notar que a revelação da Vida acontece no aqui, no agora.
… Silenciosa. Constante. Presente!
O caminho não está além, está aqui.
A resposta não vem depois, já é.
Mas é preciso deter o passo interior, aquietar o olhar e permanecer tempo suficiente… para, enfim, ver!
Começar de Verdade
O novo ano começa onde houver uma nova forma de ser. Um modo mais atento, mais leve, mais suficiente, mais presente, mais autêntico, mais espontâneo.
Um ano verdadeiramente novo não se faz com metas grandiosas, mas com pequenas fidelidades:
- respirar com consciência
- escutar com o coração
- comer com atenção
- viver com presença.
Essa é a grande virada. E ela não começa com um brinde, mas com um despertar.
Para Terminar, um Convite
Antes de correr para fazer planos, sente-se…
Olhe ao redor…
Olhe para dentro…
O novo já começou…?
Não é preciso correr atrás dele. É preciso apenas estar onde se está…!
Maurício Silva
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