O solo onde a alma cria raiz

 

Nem toda pergunta quer resposta. Algumas querem companhia.

 

Era uma manhã comum, dessas que começam com café e promessas de produtividade.
Mas bastou uma pergunta simples – dessas que chegam sem aviso – e o chão das certezas tremeu por dentro.
A mente, treinada para respostas, procurou alguma – como quem busca um documento valioso em meio ao caos.
Mas não havia nada ali.
Nada além de um silêncio profundo…
E uma frase quase infantil, mas imensa:

“Não sei!”

 

Quando a Certeza se Cala, o Mistério Respira

O “não sei” chegou como quem pede permissão, mas já sabendo que seria acolhido.
Parecia pequeno, mas continha vastidão.
Ali, compreendi: há mais vida na dúvida honesta do que na certeza apressada.
Há mais Deus no silêncio sincero do que nas respostas bem formuladas.

O “não sei” não é ignorância.
É presença sem armadura.
É solo fértil para tudo o que ainda pode florescer.

 

O Saber Também Pode Ser um Escudo

Fomos ensinados a saber.
A responder.
A vencer discussões.
A parecer seguros.

Mas, muitas vezes, “saber” cedo demais, muito ligeiro e sem reflexão, é um jeito refinado de evitar o vazio.
Uma estratégia elegante de fugir do que é incômodo, incerto, incontrolável.

Nem todo saber liberta.
Alguns nos mantêm protegidos do que mais poderia nos transformar.

A alma não busca saber para controlar.
Ela quer escutar para integrar.
Quer mergulhar no que não cabe em fórmulas – mas pulsa com verdade.

 

Existe Uma Sabedoria Que se Ajoelha Antes de Falar

O “não sei” que cura é o que nasce de um coração rendido.
Não é desinteresse: é reverência.

Dizer “não sei” é tirar os sapatos diante do mistério.
É aceitar que algumas coisas não se explicam – apenas se habitam.

É perceber que certas perguntas não pedem resposta.
Pedem companhia…

Pedem silêncio…
Pedem um espaço onde a alma possa respirar sem exigência de conclusão.

 

O Saber Que Abraça a Dúvida é um Saber Vivo

Você pode ter lido todos os livros.
Frequentado retiros. Praticado silêncio.
Mas se hoje não consegue se colocar diante de uma pergunta sem se defender,
ainda vive na superfície.

A alma não quer vencer a incerteza.
Quer caminhar com ela.
Quer fazer do “não saber” uma ponte, não uma ameaça.

O saber verdadeiro não explica – revela.
Não convence – comove.
Não se impõe – convida.

 

Tudo o Que Vive Aceita Não Saber

O passarinho não sabe se haverá manhã,
mas canta.

A flor não sabe se o sol voltará,
mas se abre.

A árvore não sabe se o outono trará perda ou poesia,
mas entrega suas folhas mesmo assim.

E você?

Você também pode viver sem todas as respostas.
Pode encontrar um novo tipo de lucidez – que não é saber, mas presença viva.

O “não sei” é o portal por onde o Sagrado entra –
quando o ego, enfim, se cala!

Maurício Silva


1 comentário

Marcia · junho 28, 2025 às 1:11 pm

Que esse texto, se aplicado em nossa forma de agir na vida, sem dúvida, nos fará melhores e mais felizes!
Parabéns

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